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FOI HÁ 100 ANOS!... E HOJE?Por Dom Vasco Teles da Gama |
Estamos
a escassos dias do centenário do criminoso acto
fundacional da república que temos: O assassinato à bala do Rei D.
Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe, em pleno Terreiro do Paço,
em Lisboa, quando regressavam, em carruagem aberta, de Vila Viçosa.
Foi este acto tão repelente quanto absurdo, pois se destinou a
eliminar uma das maiores figuras do seu tempo, pois além de ter sido
um Chefe de Estado como em cem anos não voltámos a ter, foi ainda um
notável artista, cientista, marinheiro, desportista, lavrador e
diplomata.O seu reinado começou com a humilhação do ultimato britânico, mas prosseguiu com notáveis vitórias militares em África, enquanto em Portugal o Rei travava uma outra batalha diplomática, promovendo visitas de Estado dos dirigentes das principais potências europeias, que terão contribuído para o adiamento do que veio a ser a Primeira Guerra Mundial. Estiveram, assim, em Lisboa, os reis Afonso XIII de Espanha, Eduardo VII de Inglaterra, o Imperador da Alemanha e o Presidente Loubet de França, só para mencionar os mais importantes. Morto com apenas 45 anos de idade, deixou centenas de desenhos, aguarelas e pastéis de grande qualidade, que chegou a expor e a ver premiados. Foi pioneiro da oceanografia, com o Príncipe Alberto do Mónaco, com quem trocava correspondência científica e efectuou o levantamento das espécies marinhas da costa portuguesa, Madeira e Açores. Fundou o aquário Vasco da Gama no Dafundo, em cujas instalações se encontram ainda vários exemplares, pelo Rei classificados e conservados. Deu grande impulso a vários desportos até então desconhecidos em Portugal, como o ténis e o futebol. Exímio caçador, publicou, com ilustrações do seu mestre Enrique Casanova, um inventário das aves de Portugal. Foi grande lavrador, actividade que muito apreciava e desenvolveu, criando as Ordens do Mérito Agrícola e Industrial. Sob a égide da Rainha D. Amélia, foram criados os Institutos de Socorros a Náufragos e de Assistência aos Tuberculosos, que pela sua importância, ainda se conservam. Profundamente moderno e liberal, neutralizou um golpe militar contra o desgastado e desacreditado sistema parlamentar, nomeando Mouzinho de Albuquerque educador do Príncipe Real. Fazendo-se eco de toda uma geração ilustre, que ficou conhecida pelos "Vencidos da vida", procurou salvar a Monarquia parlamentar, mau grado as dificuldades criadas pela matéria-prima de que dispunha. Pela pulverização dos partidos políticos e a inerente ingovernabilidade alcançada, dissolveu o parlamento e nomeou João Franco por um período transitório até novas eleições, que estavam já marcadas, quando ocorreu o Regicídio. Houve sempre liberdade de imprensa, largamente aproveitada pelos sete por cento de republicanos existentes, para difamar o Rei, pelos mais mesquinhos e prosaicos motivos. Volvidos que estão cem anos sobre este infausto acontecimento, todos assistimos já a momentos de instabilidade parlamentar, que forçaram presidentes a demitir e nomear governos (de Ramalho Eanes a Jorge Sampaio), a perseguições a comentadores políticos por delito de opinião e até acabamos de assistir ao assalto pelo governo do último grande banco privado, diz-se que com o objectivo de transferir o respectivo fundo de pensões para a Caixa Geral de Aposentações, a bem do próximo orçamento de Estado. Vemos a nossa liberdade cada vez mais condicionada, seja por imperativos de segurança, seja por ridículas directivas comunitárias, zelosamente aplicadas por novos inquisidores. Falta explicarem-nos como é que a Segurança Social aguentará no futuro, toda a preocupação demonstrada agora com a nossa saúde… Vivemos, enfim, um século depois do Regicídio, com este terrível dilema entre sermos um país ingovernável, sem maiorias parlamentares, ou um país insuportável, se temos maiorias arrogantes e prepotentes.n Nota: o texto publicado é da exclusiva responsabilidade do autor. Texto publicado no Diário Digital a 16-Jan-2008 |
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